Nova geração deve garantir um ambiente de trabalho mais igualitário, diz Heloísa Macari

Sócia-diretora da Protiviti fala sobre os desafios das mulheres no mercado de trabalho, como a tecnologia está transformando a área de compliance e o que espera da nova geração de profissionais.

“Só o conhecimento hoje não basta.” A afirmação é de Heloísa Macari, 40 anos, sócia-diretora da área de compliance da Protiviti. Formada em administração pela Fundação Getúlio Vargas e em direito pela PUC-SP, ela construiu praticamente toda sua carreira profissional na consultoria em que hoje é sócia — foi de estagiária a diretora.

Ela conversou com Época NEGÓCIOS sobre os desafios de sua carreira na área de compliance e as inovações tecnológicas que estão transformando o setor. “O conhecimento precisa, de alguma maneira, estar embarcado em uma tecnologia. O diferencial hoje é o que eu consigo para trazer mais eficiência, mais precisão e uma velocidade maior”, afirma a executiva.

Heloísa, que também é professora do curso de gestão de riscos e compliance da FIA, falou ainda que acredita que a nova geração de profissionais deverá transformar o mercado de trabalho em um ambiente mais justo. “É uma geração que ajuda não só a trazer a diversidade, mas que é colaborativa. Isso trará mudanças positivas para o ambiente de trabalho.”

Quais você diria que foram seus maiores desafios na carreira?
Os desafios que eu tive me fizeram crescer bastante como profissional. Tive de trabalhar em diversos projetos de setores da economia mais tradicionais, que tinham muito mais homens do que mulheres. No varejo, por exemplo. Eu era sempre uma das poucas mulheres – ou até única – a participar dos projetos dos clientes. Outro aspecto relevante é que sempre trabalhei muito com engenheiros, sendo administradora e advogada. Eu tinha uma maneira diferente de pensar e interpretar os problemas. Acho que isso também foi um desafio.

Você citou essa presença maior de homens em alguns setores. Como está a participação feminina nos dias de hoje?
Entendo que ainda há uma predominância de homens, principalmente quando você pensa em posições de liderança. As estatísticas apontam isso. E ainda existe uma certa dificuldade das empresas encararem esse problema. Muitas vezes a mulher desiste de seguir adiante na carreira por algumas dificuldades que são colocadas. Por isso, acaba tendo um número de mulheres menor na liderança das empresas. Não enfrentei nenhuma barreira nesse sentido, pois fui mãe um pouco mais velha – aos 37 anos. Tive gêmeos, tirei minha licença, voltei e continuo trabalhando, conciliando a vida pessoal e profissional.

E como você vê essa nova geração de homens e mulheres que estão chegando ao mercado?
É uma geração mais inquieta, que busca conhecimento, reconhecimento e quer ter uma voz ativa dentro da organização. É uma geração movida a desafios e missões. É uma geração que se preocupa mais com os impactos do trabalho para a sociedade. É mais motivada por causas, não tanto por carreiras. Para essa geração, talvez não importe tanto essa questão de títulos, o que importa é gerar impactos para a sociedade. Ao mesmo tempo, é uma geração mais carente de regras e diretrizes. Falo isso pensando em compliance que é com o que trabalho. É preciso deixar muito mais claro para essa geração o que pode e o que não pode. Evitar conflito de interesse, evitar um comportamento inadequado no ambiente de trabalho e no relacionamento com o cliente. As empresas precisam orientar ainda mais esses profissionais nesse sentido.

Você acha que essa nova geração pode garantir um ambiente de trabalho mais igualitário?
Sim, pois eles lidam melhor com as diferenças, gostam mais da diversidade. Não implicam com coisas que implicavam no passado, como um cabelo cumprido, uma tatuagem. É uma geração que já cresceu em um ambiente de maior diversidade. Uma geração que ajuda não só a trazer essa questão da diversidade, mas é uma geração mais colaborativa. Isso trará mudanças positivas para o ambiente de trabalho.

O que a tecnologia tem trazido de novo para sua área de atuação?
Em consultoria, a tecnologia é mandatória. É preciso pensar em soluções digitais e ambientes digitais para oferecer ao cliente. Só o conhecimento hoje não basta. Hoje o conhecimento está muito globalizado, popularizado. Antigamente, as pessoas das consultorias eram reconhecidas pelo conhecimento que tinham. Hoje isso não é o diferencial. Hoje precisa ser um conhecimento aplicado, que traga uma solução. O conhecimento de alguma maneira tem que estar embarcado em uma tecnologia. O diferencial hoje é o que eu consigo para trazer mais eficiência, mais precisão e velocidade maior. Hoje em dia, o perfil dos profissionais dentro de uma consultoria é de alguém curioso, que tem vontade de trabalhar com tecnologia.

Com a implementação dessas tecnologias, como você vê o futuro das áreas de compliance e das próprias consultorias?
A tecnologia pode trazer mais precisão, garantindo que as pessoas e empresas realmente sigam as regras. Com o implemento de tecnologia, você consegue ajudar as pessoas a tirarem dúvidas mais rapidamente sobre o que está acontecendo. No caso do compliance, por exemplo, as pessoas podem se sentir intimidadas de perguntar se podem oferecem um presente, um brinde ou um almoço para um fornecedor. Talvez ela sinta que, quando perguntar se pode fazer isso, as pessoas já vão pensar: ‘poxa, será que ela quer fazer isso’. Há um julgamento de valor. Talvez essa pessoa se sinta mais acolhida para fazer essa pergunta a um robô, que não fará julgamento de valor. Entendo que todo esse processo de digitalização dos ambientes de trabalho vai trazer um impacto melhor, mais voltado para você ter o resultado que espera em termos de compliance.

FONTE: Época Negócios

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